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sexta-feira, 6 de março de 2026

Refeições de Hospitalidade de Outro Mundo - Prólogo


Arco da Primavera Inicial

Prólogo – O Pudim

Ovos frescos recolhidos naquela manhã do galinheiro.

Clac!  bati o ovo na borda da tigela metálica.

Ploc.

A clara translúcida escorreu lentamente, enquanto a gema, redonda e de um laranja vibrante, caiu dançando no fundo da tigela.

A gema trêmula e a clara cristalina, iluminadas pela luz fluorescente, pareciam dizer com orgulho: “Somos fresquíssimos!”. Aquilo, por algum motivo, me deixou feliz.

Continuei quebrando ovos  ploc, ploc, ploc!  quando percebi que ele, ao meu lado, observava minhas mãos com a boca meio aberta.

Não consegui evitar uma risada.

— Será que é a primeira vez que ele vê alguém quebrar ovos?

Quando percebeu que eu estava rindo, ele pareceu notar a expressão que fazia. Corou levemente e tentou recompor o rosto às pressas.

— Quer tentar quebrar um? — perguntei.

— N-não… Acho que só atrapalharia…

Apesar da recusa, seus olhos revelavam curiosidade. Seus dedos se mexiam inquietos, como se quisessem tentar.

— Nobres… não cozinham, é?

— Não. Normalmente temos cozinheiros exclusivos na mansão.

— Imaginei. Então essa é a sua primeira vez.

Sorrindo, empurrei a tigela com os ovos e um batedor para as mãos dele sem dar muita escolha.

— Hã? Eh?

Ele alternava o olhar entre a tigela e eu, confuso.

Dei um tapinha em seu ombro e fiz um gesto indicando para misturar.

Provavelmente eu estava com um sorriso meio malicioso.

— São ovos postos hoje cedo, então talvez demorem um pouco para misturar. Faça com cuidado, certo? O resultado final depende de você.

Ele empalideceu levemente, encarou a tigela por um momento e começou a bater com dedicação absoluta.

clac-clac do batedor contra a tigela ecoava pela cozinha pequena, misturado ao som metálico de sua armadura.

Peguei leite da geladeira e medi a quantidade na balança de cozinha. Também preparei uma pequena tigela com fava de baunilha.

Pensei em colocar creme de leite… mas desisti.

Hoje queria fazer o mais simples possível.

Separei o açúcar: uma parte para o caramelo, outra para o pudim.

Quando olhei novamente para ele, os ovos já estavam bem misturados. Então comecei a adicionar o açúcar aos poucos.

O açúcar branco caía como neve e desaparecia dentro do amarelo dourado dos ovos.

Pedi para ele segurar a tigela inclinada enquanto misturava.

Enquanto isso, coloquei leite e baunilha em uma panelinha e liguei o fogão.

Fogo bem baixo.

Usei um termômetro para garantir que não passasse de 60 °C. Se esquentasse demais, os ovos poderiam cozinhar.

Foi então que percebi algo.

Eu deveria ter feito o caramelo primeiro.

Droga.

Mesmo que a mistura do pudim estivesse pronta, eu não poderia colocar nos potes sem o caramelo!

Por dentro eu estava em pânico.

Mas seria irritante se ele percebesse.

Então preparei outra panela como se nada tivesse acontecido.

Coloquei açúcar e um pouco de água e levei ao fogo médio.

— Uau… que cheiro doce e bom.

Ele parecia gostar de doces.

Seus olhos cor de mel brilhavam enquanto observava o caramelo.

— Que cor bonita…

Para alguém acostumado com olhos e cabelos pretos, como nós japoneses, aquela cor parecia uma joia.

Ah… que homem bonito.

Cozinhar ao lado dele era um privilégio.

Era como assistir a um idol de pertinho.

Enquanto comemorava mentalmente essa sorte, continuei cozinhando.

Quando o açúcar ficou da cor de caramelo, tirei do fogo e coloquei um pouco de água.

Shhhhhh!

O líquido borbulhou violentamente.

Mexi com a colher.

Pronto: calda de caramelo.

Distribuí nos potes de pudim.

— Ufa. Ainda bem que percebi.

Pudim sem caramelo não é pudim.

Bem… eu não sou confeiteira profissional.

Erros de ordem de preparo acontecem.

Agora sim, era hora de terminar.

Misturei o leite quente aos ovos aos poucos.

O amarelo se transformou em um creme suave.

Depois coei a mistura em outra tigela.

— Pode despejar aqui, por favor.

Ele engoliu em seco e, com extrema concentração, despejou o líquido pela peneira.

Quando terminou, soltou um longo suspiro.

— Será que ele estava prendendo a respiração…?

Segurei o riso.

Ele parecia um garoto em aula de culinária pela primeira vez.

Depois pedi que repetisse o processo mais duas ou três vezes.

Para um pudim liso, isso é essencial.

Quando o líquido ficou perfeitamente suave, despejei nos potes.

Coloquei no vaporizador sobre a panela fervendo e fechei a tampa.

— Pronto!

Senti uma estranha sensação de conquista.

Quando me virei, ele também estava sorrindo satisfeito.

— Agora esperamos cerca de quinze minutos.

— E então estará pronto?

— Sim. Depois é melhor resfriar na geladeira… mas para o chá da tarde estará perfeito.

Lavei os utensílios enquanto o tempo passava.

Piii piiii.

O timer tocou.

Abri o vaporizador com cuidado.

Sacudi levemente.

Perfeito.

O pudim dourado estava pronto.

Sem bolhas.

Lindo.

Cada vez que eu movia o pote, a superfície tremia suavemente.

Adoro pudim firme, mas esse tipo macio e tremelicante é meu favorito.

Ele provavelmente derreteria na boca.

Olhei o relógio.

10:30 da manhã.

Ainda dava tempo de tomar chá antes de preparar o almoço.

Coloquei água para ferver e preparei duas xícaras de chá.

Ele já estava sentado, relaxando.

Também me sentei enquanto a água esquentava.

Observei a cozinha.

Uma cozinha pequena e familiar.

Pia antiga de aço inox.

Porta de correr velha entre cozinha e sala.

Lâmpada fluorescente piscando.

Na mesa antiga, o pudim esfriava.

Diante dele, sentado e sorrindo, estava um cavaleiro guarda-costas com armadura prateada reluzente, cabelo preto e olhos dourados.

Do lado de fora da janela, soldados patrulhavam com lanças enormes, marchando e gritando:

— Um! Dois! Um! Dois!

Ao redor da casa havia cerejeiras, ameixeiras e caquizeiros.

Além do velho canil abandonado, erguia-se uma muralha branca gigantesca.

E além dela…

Um enorme castelo.

Agora tudo aquilo já era uma paisagem familiar.

Não aceito perguntas.

Porque eu mesma não sei responder.

Para começar, isso não é o Japão.

Repito.

Não é o Japão.

Então é um país estrangeiro?

Não.

É outro mundo.

Segundo minha irmã, fomos vítimas do famoso “transporte para outro mundo”.

Nossa casa japonesa antiga.

Minha irmã.

Eu.

E nosso cachorro.

Todos fomos transportados para outro mundo — junto com a casa.

E agora…

por algum motivo…

estamos fazendo pudim.


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