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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O Herdeiro do Submundo que Recusou o roteiro original - Capítulo 01

 

Capítulo 01: A Armadilha do Mentor nas Sombras

Meu pai, Balan, não apenas me concedeu um território também providenciou uma pequena bolsa abarrotada de moedas de ouro como verba inicial.

Para alguém como eu, ainda praticamente no nível inicial antes mesmo do início oficial da história original, aquilo era uma ajuda inestimável.

Será que ele realmente estimava o próprio filho?

Não. Aquele homem jamais nutriria pensamentos tão nobres.

Dizem que o leão lança o filhote ao vale para fortalecê-lo. Meu pai faria o mesmo e ainda enviaria assassinos atrás, para garantir.

Se me entregou esse território, é mais prudente encarar como uma armadilha.

Mandei um avaliador verificar as moedas. Todas autênticas.
Ele não cometeria um erro tão óbvio quanto falsificação barata…

Então, onde estaria o veneno?

O cocheiro que me guiaria até a propriedade?
Os guardas designados à minha proteção?
Os criados que me serviriam?
Ou todos eles seriam assassinos?

Meu pai, que mantém relações com os demônios, poderia muito bem incitar monstros contra mim.
Ou talvez os próprios habitantes da terra designada fossem assassinos ou súditos revoltados contra ele.

Sendo honesto, essa última hipótese parecia a mais provável.

No cenário atual, o “bom nobre” é aquele que suga impostos do povo para ostentar luxo na capital. Logo, é razoável supor que meu pai seja odiado por seus próprios camponeses.

Se fosse eu, ao dividir parte de minhas terras, escolheria a região menos lucrativa e mais problemática.

E provavelmente foi exatamente isso que ele fez.

Abri os documentos espalhados sobre a mesa.

“Nomeado senhor da região ao redor da Vila de Alf.”

O segundo papel indicava sua localização.

A região situava-se num ponto estratégico do Reino de Inlark, na fronteira com quatro nações: o Reino Demoníaco de Trismaris, o Reino Bestial de Huge, o Ducado Sagrado de Ames e o Império Dragunov. Por isso, o duque Lousaus mantinha vigilância constante ali. Soava nobre dizer que seu filho legítimo, Yuri, assumiria tal posto.

Na prática, porém, tratava-se de terras áridas: poucos recursos, colheitas fracas, nenhum atrativo real para invasões.
Mas, por ser ponto estratégico, exigia tropas permanentes o que a tornava mais um fardo do que um prêmio.

Uma transferência elegante. Um exílio disfarçado.

— Hm… falta comida. Talvez não haja armas nem armaduras suficientes. Preciso providenciar caravanas comerciais… E faltam pessoas.

Quanto mais eu listava o necessário, mais a lista parecia infinita.

— Bem… no pior dos casos, basta eu sobreviver. Construo uma cabana e vivo tranquilamente.

Claro, isso seria o último recurso.

Os movimentos do meu pai.
Os do protagonista.
Os do reino.
Os das nações vizinhas.

Sem saber de nada disso, viver isolado seria como entrar nu na jaula de uma fera.

— Preciso de pelo menos uma pessoa absolutamente confiável. Idealmente três… mas não tenho dinheiro para tanto.

Ainda assim, havia uma opção.

Agarrei a bolsa de moedas e segui direto para aquela loja.

◇ ◇ ◇

Naturalmente, dirigi-me a um mercador de escravos.

No Reino de Inlark, o comércio de escravos é legalizado. Existem leis que regulam seu tratamento; danos deliberados são proibidos. Em contrapartida, os escravos também são obrigados a obedecer às ordens do senhor dentro dos limites legais, graças a contratos mágicos.

Em termos de lealdade garantida, eram recursos seguros.

Apesar de ter apenas dez anos, eu era filho de um duque. Fui conduzido a uma sala de recepção luxuosa. Logo surgiu um homem rechonchudo.

— Ora, ora, Lorde Yuri. O que o traz a um lugar como este? Busca trabalhadores para desenvolver suas novas terras?

Impressionante. Em apenas um dia, ele já sabia.

Rápido demais.

— A informação circula depressa. Posso saber a fonte?

— Segredo comercial, milorde. Mesmo a seu pedido, não posso revelar.

Como se tivesse ouvido diretamente de meu pai.

Uma vez que a suspeita nasce, tudo parece suspeito.

— Entendo… então será mais simples. Pode mostrar-me as opções?

— Certamente.

Logo trouxe três escravos: dois homens e uma mulher. Vestiam roupas brancas limpas; apenas as mãos amarradas denunciavam sua condição.

— Entre os mais fortes de minha coleção. Níveis 45, 39 e 42. Competiriam com aventureiros de elite.

Fisicamente impressionantes. A mulher também exalava competência.

Mas eu tinha um trunfo.

Usei magia de avaliação.

Originalmente, era habilidade exclusiva do protagonista do jogo. Após reencarnar, eu também podia usá-la. Talvez não fosse privilégio do “protagonista”, mas do “jogador” e eu me tornara um.

Foi assim que descobri ser Yuri Lousaus. Que possuía aptidões altíssimas. E que, seguindo as palavras de meu pai “não confie nem mesmo na família” ocultara minhas próprias capacidades.

Ao analisar os escravos, confirmei: os níveis estavam corretos. Habilidades excelentes. Alguns possuíam até mesmo talentos raros.

Mas havia um detalhe.

Todos já possuíam contrato.

Com Balan Lousaus.

Então era isso.

Se eu firmasse contrato, bastaria uma ordem para que se tornassem assassinos perfeitos.

Até onde ele iria?

Mantive o sorriso.

— São impressionantes. Porém, não atendem ao que procuro. Peço desculpas.

— Oh? Deseja ver outros?

— Sim, por favor.

Mantive a expressão cordial. Um garoto de dez anos agindo assim devia parecer perturbador.

Todos os escravos seguintes já estavam vinculados a meu pai.

◇ ◇ ◇

Saí sem comprar nada.

Meu pai previra que eu buscaria lealdade garantida e armara a rede com antecedência.

Se faz isso comigo, certamente faz com outros nobres.

Sempre pronto para assassinar.

— Talvez não exista ninguém fora da influência dele…

Na verdade, havia algumas possibilidades.

O grupo do protagonista, por exemplo. Eles não tinham ligação com o mentor nas sombras.

Mas envolver-me com eles significaria mover a engrenagem da história e ser arrastado à ruína junto.

Eu precisava de alguém completamente fora do enredo. E fora do alcance dele.

Então lembrei.

Uma figurante que morre no início da obra original.

Uma garota da capital.

Se morre sem importância, não possui ligação com o vilão.

E carrega um problema.

Filha de humano e homem-fera, sofria perseguição. Sem emprego, vivia de restos de comida. Cinco anos depois, quando a história começa, guardas a impedem até disso. Desesperada, sai para caçar monstros  incapaz de lutar e encontra uma criatura de alto nível que não deveria estar ali.

Morre.

Um evento forçado.

Narrado em uma única frase.

Sem salvar ninguém.

Ela é perfeita.

Fora da trama. Fora da influência dele.

— Certo… vou encontrá-la.

Vou procurar Fee.


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